O telefone toca, e do outro lado alguém muito educado diz ser da central de segurança do banco. Fala seu nome, confirma o CPF e avisa que há uma compra estranha em andamento. É um dos golpes mais bem ensaiados do país, e quase sempre vence pela pressa. Conhecer o roteiro tira a força dele.
Como o golpe funciona
O golpista começa com uma história que assusta: compra suspeita, tentativa de invasão da conta, cartão clonado. Depois, vai conduzindo a conversa para um destes pedidos:
- Confirmar dados: senha, código de SMS, token do app, número do cartão e código de segurança.
- Transferir o dinheiro para uma “conta segura”, que na verdade é do criminoso.
- Fazer um “Pix de teste” para “validar” ou “reverter” a operação.
- Instalar um aplicativo que dá controle do celular ou do computador a distância, para que o golpista opere seu banco.
- Entregar o cartão a um motoboy ou cortar o cartão e entregar o chip.
- Ligar para outro número, passado pelo golpista, que é de um comparsa.
Muitas vezes a ligação é encadeada: o “atendente” passa você para o “gerente” ou para o “setor de segurança”, dando a impressão de um processo oficial.
Por que o golpe parece tão convincente
- O golpista sabe seu nome, CPF e outros dados. Eles vêm de vazamentos e de golpes anteriores.
- O número no visor parece o do banco, porque pode ser falsificado.
- O tom é calmo, profissional e prestativo.
- A conversa cria medo e urgência: “se não fizer agora, o dinheiro some”.
- Pode haver ruídos de call center ao fundo e até música de espera.
Nada disso prova que a ligação é verdadeira.
Variações do golpe
O roteiro da falsa central se adapta a vários cenários, e conhecer os mais comuns ajuda a não ser pego de surpresa:
- Ligação automática: uma gravação diz que há uma compra suspeita e pede para discar um número para falar com um atendente. O atendente já inicia a conversa de forma convincente.
- Mensagem seguida de ligação: primeiro chega um SMS ou WhatsApp sobre bloqueio de conta, depois o telefone toca com um falso atendente para “resolver”.
- Falso atendente que já tem seu nome e o último dígito do cartão: ele usa informações reais para parecer confiável.
- Falso consultor de investimentos ou de empréstimo: oferece condições boas demais e pede um depósito para liberar o valor.
- Contato pelo WhatsApp com o logotipo do banco: o perfil usa a marca da instituição, mas o número não é o oficial.
Em todas as variações, o objetivo final é um destes: conseguir seus códigos ou levar você a mover o dinheiro por conta própria.
O que o banco nunca faz
Guarde esta lista. Se qualquer pedido dela aparecer, é golpe:
- Pedir senha, token ou código recebido por SMS, em ligação, mensagem ou e-mail.
- Pedir que você transfira dinheiro para uma conta “segura”, faça Pix de teste ou pague boleto para cancelar compra.
- Mandar instalar aplicativo de acesso remoto ou qualquer programa.
- Pedir que você entregue o cartão a motoboy ou funcionário.
- Pedir que você ligue para um número que ele mesmo informa.
- Exigir que você fique na linha e não desligue para “não perder a proteção”.
O que fazer durante a ligação
- Não informe nada e não siga nenhuma instrução, por mais urgente que pareça.
- Desligue. Você não precisa ser educado com quem pede dados.
- Ligue você mesmo para o número do verso do cartão ou o que está no app do banco. Se possível, use outro telefone; se só tiver aquele, espere um pouco e confirme que há sinal de linha antes de discar.
- Abra o app do banco e olhe o extrato e as notificações. Se houver mesmo uma compra suspeita, o canal oficial resolve.
- Não aceite “transferir a chamada” ou “aguardar um retorno”. Quem liga para você é quem precisa provar quem é, e isso não é possível pelo telefone.
Já passei dados ou fiz transferência
Aja rápido, na seguinte ordem:
- Ligue para o banco pelo número oficial e diga que passou dados ou fez transferências a pedido de um golpista. Peça o bloqueio de cartão, conta ou acesso.
- Solicite a contestação das operações e, no caso de Pix, o acionamento do MED, o Mecanismo Especial de Devolução.
- Se instalou um aplicativo, desinstale, desconecte o aparelho da internet e siga como saber se o celular tem vírus.
- Troque as senhas do banco, do e-mail e de outras contas ligadas ao telefone.
- Registre um boletim de ocorrência com data, horário, número que ligou e valores.
O passo a passo detalhado está em o que fazer depois de cair em um golpe.
Como se proteger antes que o telefone toque
- Reduza os limites de Pix, transferência e saque no app, para valores próximos do que você realmente usa.
- Ative as notificações de todas as movimentações da conta.
- Cadastre o aparelho e use o token do app, se o seu banco oferecer essa opção.
- Combine uma regra com a família: ninguém faz operação por telefone sem desligar e ligar de volta para o número oficial.
- Evite divulgar CPF, telefone e dados de cartão em formulários e redes sociais.
- Conheça os outros golpes de transferência. Veja golpes do Pix: como se proteger.
Se a ligação deixou você nervoso, é normal: o golpe foi feito para isso. A regra que resolve é sempre a mesma: desligue, ligue de volta por conta própria e só então decida o que fazer.