Alguém sempre sabe onde você está, parece conhecer conversas que você não contou e a bateria do celular acaba sem motivo. Esses sinais podem ter explicações simples, mas também podem indicar um stalkerware, aplicativo feito para vigiar uma pessoa sem que ela perceba. Aqui está como investigar com cuidado e, principalmente, com segurança.
O que é stalkerware
É um software de monitoramento escondido. Quem o instala consegue, dependendo do programa, ver mensagens, fotos, histórico de navegação, ligações, localização em tempo real e até o que é digitado. Costuma ser colocado por alguém próximo, como parceiro, ex-companheiro ou familiar, que teve acesso ao aparelho por alguns minutos ou que conhece a senha.
Não depende de conhecimento avançado de quem instala, e é por isso que é um problema sério de segurança pessoal. Em muitos casos, aparece em situações de controle e violência no relacionamento. Vigiar a vida de outra pessoa é violação de privacidade e pode configurar crime.
Sinais de alerta
Nenhum sinal sozinho prova nada. Vários ao mesmo tempo merecem atenção:
- Bateria acabando rápido e aparelho quente sem uso intenso.
- Consumo de internet alto sem explicação, visível nas configurações de dados.
- Apps que você não instalou, às vezes com nomes genéricos, como “Serviço de sistema” ou “Sincronização”.
- Alguém que sabe de coisas que você só disse em mensagem privada ou em lugares onde esteve.
- Configurações alteradas, como a opção de instalar apps de fontes desconhecidas ligada ou o Google Play Protect desligado.
- Avisos de login em suas contas feitos de aparelhos que você não reconhece.
- Barulhos ou reinícios estranhos durante ligações, embora isso também seja comum em aparelhos velhos.
Como verificar no Android
Os menus mudam conforme a marca e a versão, mas o roteiro geral é este:
- Rode o Google Play Protect na Play Store, no menu da sua conta, e peça uma verificação.
- Revise a lista de apps em Configurações, Apps. Procure o que você não reconhece, inclusive apps sem ícone na tela inicial.
- Confira os apps com acessibilidade ativa em Configurações, Acessibilidade. Esse recurso, feito para ajudar pessoas com deficiência, é muito usado por programas de espionagem para ler a tela.
- Veja os administradores do dispositivo, em Segurança. Apps que você não reconhece com esse poder merecem remoção.
- Confira o acesso às notificações e a permissão de instalar apps desconhecidos.
- Verifique os dispositivos logados na sua conta Google, em myaccount.google.com, na área de segurança.
Para um roteiro de limpeza geral, veja como saber se o celular tem vírus e como remover.
Como verificar no iPhone
O iPhone é mais fechado, e instalar um app espião nele costuma exigir acesso físico ou a conta Apple da pessoa. Mesmo assim, vale conferir:
- Dispositivos conectados à sua conta: em Ajustes, toque no seu nome e role para ver a lista. Remova o que não reconhece.
- Compartilhamento de localização: em Ajustes, Privacidade e Segurança, Serviços de Localização, e no app Buscar, veja com quem sua localização é compartilhada.
- Verificação de Segurança: em versões recentes do iOS, existe a Verificação de Segurança em Ajustes, Privacidade e Segurança. Ela ajuda a revisar e interromper rapidamente o compartilhamento de dados com outras pessoas e apps. O nome pode variar conforme a versão.
- Perfis de configuração: em Ajustes, Geral, VPN e Gerenciamento de Dispositivo. Se houver perfil que você não instalou e que não seja da sua empresa ou escola, desconfie.
- Atualize o sistema, porque as versões novas corrigem falhas exploradas por esse tipo de programa.
O espião pode estar na conta, não no aparelho
Muita gente só olha o celular, mas o acesso às informações pode vir de outro lugar:
- Senha da conta Google ou Apple conhecida por outra pessoa, o que permite ver localização, fotos e backups.
- WhatsApp Web ou aplicativo conectado em outro aparelho. Em Aparelhos conectados, encerre as sessões que você não reconhece.
- Compartilhamento de localização em apps de mapa ou de família, ativado por consentimento antigo.
- E-mail com regras de encaminhamento que enviam cópias das mensagens para outro endereço.
Troque as senhas mais importantes, preferindo um aparelho que não tenha sido acessado por essa pessoa, e ative a verificação em duas etapas.
O que fazer, com cuidado
Siga uma ordem que priorize a sua segurança:
- Não confronte ninguém antes de se proteger.
- Use outro aparelho (de uma amiga, da biblioteca, do trabalho) para pesquisar, falar com pessoas de confiança e trocar senhas.
- Guarde provas antes de apagar qualquer coisa: capturas de tela de apps, logins e mensagens podem ser úteis em uma denúncia.
- Remova o app ou restaure o celular de fábrica quando for seguro. Faça backup só de fotos e contatos, sem restaurar apps. O passo a passo está em reiniciar ou restaurar o celular de fábrica.
- Revise as contas depois da limpeza e troque todas as senhas.
Onde pedir ajuda
Se a vigilância vem de alguém com quem você tem um relacionamento, trate como possível violência. No Brasil:
- Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher, gratuita e com funcionamento contínuo.
- Em risco imediato, ligue 190.
- Procure uma delegacia, preferencialmente especializada no atendimento à mulher, para registrar boletim de ocorrência. Perseguição é crime previsto na legislação brasileira.
- Se for uma situação de trabalho, procure o setor de TI da empresa e o jurídico.
Um profissional de segurança digital também pode examinar o aparelho e preservar evidências.
Prevenção para o futuro
- Bloqueio de tela forte, que só você conheça. Não compartilhe a senha ou o desenho.
- Atualizações automáticas no sistema e nos apps.
- Instale apps só das lojas oficiais e desconfie de links que pedem para “instalar um atualizador”.
- Revise de vez em quando as permissões e os apps instalados. Veja permissões de apps no Android e iPhone.
Se você tem uma suspeita agora, comece pelo mais seguro: use um aparelho confiável para ver os dispositivos conectados às suas contas e só depois mexa no celular suspeito.