Quem vende no Simples Nacional costuma olhar a tabela do imposto, achar a alíquota da sua faixa e usar esse número no preço. O problema é que esse percentual quase nunca é o que a loja paga de verdade. O número certo se chama alíquota efetiva, e entender de onde ele vem ajuda a calcular um preço mais seguro e a conversar com o contador.
Alíquota da tabela e alíquota efetiva
O Simples Nacional organiza o imposto em tabelas, chamadas anexos. Para quem revende mercadorias, o comércio costuma ser tratado em um anexo próprio, mas confirme o seu enquadramento com o contador. Cada tabela tem faixas de receita bruta e, para cada faixa:
- uma alíquota nominal, que é o percentual da tabela;
- uma parcela a deduzir, que é um valor em reais subtraído no cálculo.
O DAS é a guia única que reúne vários tributos. A alíquota efetiva é o percentual que sobra depois de aplicar a dedução, e é ela que mede quanto do faturamento vira imposto.
A fórmula, com um exemplo
Em palavras: multiplique a receita dos últimos 12 meses pela alíquota nominal, subtraia a parcela a deduzir e divida o resultado pela mesma receita.
Alíquota efetiva = (receita dos 12 meses × alíquota nominal − parcela a deduzir) ÷ receita dos 12 meses
Com valores inventados:
- receita dos últimos 12 meses: 240.000
- alíquota nominal da faixa: 11%
- parcela a deduzir: 8.000
Conta: (240.000 × 0,11 − 8.000) ÷ 240.000 = (26.400 − 8.000) ÷ 240.000 = 18.400 ÷ 240.000 = 7,67%.
Se o faturamento do mês foi 20.000, o imposto aproximado é 20.000 × 7,67% = 1.533. Repare: a tabela dizia 11%, e a loja pagou 7,67%.
Por que a alíquota efetiva muda mês a mês
A receita dos últimos 12 meses muda todo mês, e a parcela a deduzir continua a mesma dentro da faixa. Com a mesma faixa e a mesma dedução, o percentual cresce conforme a receita sobe:
- receita de 240.000: 7,67%
- receita de 300.000: (33.000 − 8.000) ÷ 300.000 = 8,33%
- receita de 360.000: (39.600 − 8.000) ÷ 360.000 = 8,78%
A tendência é a efetiva se aproximar da nominal da faixa. Quando a receita passa para a faixa seguinte, entram uma nova alíquota nominal e uma nova dedução, e o percentual dá um salto. Por isso, o número que você usou em janeiro pode estar desatualizado em agosto.
Na prática, isso significa que o preço calculado com 7,67% perde um pouco de margem quando a alíquota sobe para 8,33%. A diferença é de 0,66 ponto percentual, ou cerca de 0,66 por unidade num produto vendido a 100. Parece pouco, mas se repete em cada venda e em cada produto. Por isso vale perguntar ao contador, de tempos em tempos, qual é a alíquota efetiva vigente.
Como a alíquota efetiva entra no preço
O imposto percentual entra na fórmula do preço junto com a comissão e a margem, no divisor. Veja a diferença de usar o número certo, o da tabela ou nenhum. Custos em reais fictícios: 60. Comissão de 14% e margem de 15%.
- Com a alíquota efetiva (7,67%): 60 ÷ (1 − 0,14 − 0,0767 − 0,15) = 60 ÷ 0,6333 = 94,74.
- Com a alíquota da tabela (11%): 60 ÷ 0,60 = 100,00. O preço fica mais alto que o necessário e pode tirar a venda.
- Sem imposto: 60 ÷ 0,71 = 84,51. Se você vende a esse preço, a margem real cai para cerca de 7,3%, bem abaixo dos 15% planejados.
A fórmula completa e a prova real estão em como calcular o preço de venda. Para entender o papel da nota na rotina, veja nota fiscal na venda online.
Por que pedir o número ao contador
Mesmo sabendo a fórmula, o número exato depende de detalhes que só o contador enxerga:
- Como a receita dos 12 meses é contada, principalmente nos primeiros meses da empresa, em que existem regras próprias.
- Produtos com tributação diferente. Alguns itens têm parte do imposto já recolhida antes da venda, e a receita deles é separada na apuração.
- Atividades mistas. Se a empresa vende e presta serviço, cada atividade pode seguir uma tabela.
- Mudança de faixa no ano, que o contador acompanha.
Peça duas informações: a alíquota efetiva que vale para as suas vendas hoje e a previsão de quando ela muda.
Como conferir por conta própria
Uma conferência aproximada: pegue o valor do DAS de um mês e divida pelo faturamento do mesmo mês. O resultado mostra, de forma aproximada, o percentual que você pagou. Se estiver muito diferente do que usa no preço, vale perguntar ao contador o motivo. Isso não substitui o cálculo oficial, mas serve de alerta.
Anote o percentual na sua planilha de preços, com a data, e revise quando receber uma nova guia. Vale guardar um histórico simples, com uma linha por mês: faturamento, valor do DAS e percentual aproximado. Em poucos meses, você enxerga a tendência e antecipa a hora de reajustar os preços. Em geral, o percentual olha para o faturamento da empresa e não para o canal, mas confirme isso com o contador. Se você é MEI, a lógica é outra, porque a guia é fixa. O artigo MEI pode vender em marketplace? ajuda a entender essa diferença.
O que fazer agora
Mande uma mensagem curta ao contador com as duas perguntas da seção anterior e guarde a resposta. Depois, atualize o campo de imposto na planilha de preços e recalcule os produtos que mais vendem. Se algum ficar abaixo da margem desejada, ajuste o preço antes de a diferença se repetir nas vendas do mês.