Xingamentos em grupos, vídeos que expõem alguém, perfis falsos criados para humilhar, montagens e ameaças em mensagens: tudo isso é cyberbullying, a intimidação feita por meios digitais. O efeito pode ser tão pesado quanto o presencial, porque o conteúdo se espalha rápido e a vítima não tem lugar seguro. Saber o que fazer nas primeiras horas ajuda a conter o dano.
Como reconhecer que está acontecendo
Nem sempre a criança conta. Observe mudanças como:
- tristeza, irritação ou medo depois de usar o celular;
- recusa em ir à escola ou em usar redes que antes gostava;
- queda nas notas e isolamento;
- apagar contas ou perfis de repente;
- dores de cabeça ou de barriga sem explicação;
- esconder o aparelho ou fechar a tela quando alguém se aproxima.
Se você notar vários sinais, converse com carinho, sem forçar.
Primeiros passos ao descobrir
- Acolha. Diga que ela não tem culpa e que você vai ajudar. Evite perguntas como "o que você fez para isso?".
- Não apague nada. As mensagens e postagens são prova.
- Registre as provas. Tire capturas de tela mostrando o texto, o nome e o perfil do agressor, o endereço da publicação e a data e hora. Se possível, salve o link do perfil.
- Bloqueie. Depois de registrar, bloqueie os agressores para parar o contato.
- Denuncie na plataforma. Instagram, TikTok, YouTube, Discord e jogos têm botão de denunciar perfil e conteúdo. Para perfis falsos, veja como denunciar um perfil falso.
- Revise a privacidade. Deixe a conta privada e limite quem pode comentar e enviar mensagens.
Quando envolver a escola
Se o agressor é colega, avise a escola formalmente, de preferência por escrito, com as provas anexadas. Peça uma reunião com a coordenação e acompanhe as medidas. A escola pode agir com mediação, orientação aos envolvidos e comunicação aos pais.
Se o problema persistir ou a escola não agir, é possível levar o caso a órgãos como o Conselho Tutelar.
Quando procurar a polícia ou canais de denúncia
Alguns casos exigem mais do que uma denúncia na rede:
- Ameaças de agressão ou de morte;
- Exposição de fotos ou vídeos íntimos;
- Chantagem ou pedidos de dinheiro;
- Perseguição que não para, mesmo com bloqueios;
- Incitação ao suicídio ou à automutilação.
Nesses casos, registre um boletim de ocorrência na delegacia (se houver delegacia especializada em crimes cibernéticos na sua cidade, melhor) levando as provas. Os canais de denúncia online incluem a SaferNet e o Disque 100 (violações contra crianças e adolescentes). Para chantagem com imagens, leia sextorsão: o que fazer.
Em situações de risco imediato, ligue para o 190.
Cuidar de quem sofre
A parte técnica é só uma parte. A criança ou o adolescente pode estar sofrendo emocionalmente, e isso merece atenção:
- Ouça sem minimizar. "É coisa de criança" machuca.
- Considere conversar com um psicólogo, principalmente se os sinais persistirem.
- Em caso de pensamentos de autoagressão, procure ajuda imediata. O CVV atende pelo 188, a qualquer hora, e há também o serviço de saúde mental do SUS, como os CAPS.
- Mantenha a rotina e incentive atividades fora das telas.
E se o seu filho for o agressor
Também acontece, e é preciso agir. Converse sem humilhar, entenda o contexto e explique o impacto sobre o outro. Pedir desculpa, apagar o conteúdo e combinar consequências razoáveis ajuda. A escola pode orientar. Falar sobre o uso responsável da internet faz parte da educação digital em família.
O papel de quem presencia
Muitas vezes, quem vê a agressão é um colega ou amigo. Ensinar o espectador a agir muda o jogo:
- não curtir, não compartilhar e não comentar ofensas;
- mandar mensagem privada à vítima, mostrando apoio;
- avisar um adulto de confiança ou a escola;
- denunciar o conteúdo na plataforma, mesmo sem ser a vítima;
- guardar capturas de tela, se a vítima pedir ajuda.
Conversar sobre isso em casa ajuda seu filho a reconhecer que ficar calado também alimenta o problema, e que agir pode ser simples, discreto e seguro.
Mensagens que podem ajudar a vítima
Na hora de acolher, o que se diz faz diferença. Frases como “eu acredito em você”, “a culpa não é sua” e “vamos resolver juntos” ajudam muito. Evite “ignora que passa”, “é só brincadeira” ou “por que você não revidou?”. Pergunte o que ela quer que aconteça e respeite o ritmo dela, sem deixar de proteger. Se a criança pedir segredo, explique que alguns assuntos precisam de ajuda de adultos e que você vai cuidar do caso com discrição.
Como prevenir
- Mantenha o diálogo aberto: ele precisa saber que pode contar sem ser punido.
- Configure a privacidade das contas. O guia privacidade no Facebook e Instagram mostra o caminho.
- Ensine a não compartilhar fotos de colegas sem autorização.
- Acompanhe os grupos de que seu filho participa, dentro do combinado da família.
Para o panorama geral, veja como proteger crianças na internet.